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O Renascimento de Beyoncé: Tudo Sobre o Novo Álbum Renaissance

Postado por Ali Prando / 3 August, 2022

Diva do Pop e R&B lança novo projeto musical menos conceitual e altamente dançante.

Na última década, Beyoncé foi responsável por ditar as regras do audiovisual contemporâneo: criou a tendência dos álbuns visuais que foi adotada por artistas tanto do mainstream, quanto midstream e underground, trouxe o debate sobre o feminismo negro para o público de massa, re-inventou a maneira como se produz e o que se espera de shows ao vivo com sua “Formation World Tour” e o espetáculo imponente realizado em dois finais de semana no Coachella, colocou em cheque o legado da história da arte eurocentrada e colonialista ao posar em frente à Mona Lisa no Museu do Louvre, onde gravou o videoclipe de “APESHIT”, sintetizou o movimento de Black Lives Matter, colocando o dedo na ferida racial norte-americana e denunciou a violência policial com seu single “Formation”.

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Em cena desde os anos 90, quando era líder da girlband Destiny’s Child, Beyoncé foi amadurecendo aos olhos do público. Nos anos 2000, embarcou em carreira solo e transformou-se numa verdadeira máquina de hits radiofônicos: “Crazy in Love”, “Halo” e “Single Ladies”. Na década seguinte, alçou o lugar de artista-curadora e criou colaborações com renomados designers de moda, fotógrafos, produtores musicais e diretores que elevaram a qualidade de sua obra, tornando-a mais complexa e assertiva.

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As referências da sétima arte aparecem em seus videoclipes e performances, bem como Beyoncé dedica-se a uma espécie de resgate cultural de artistas negros e grandes performers da música POP – ela sabe que seu lugar não poderia existir a partir de um vácuo. Não à toa, no lançamento e exibição de seu álbum “BEYONCÉ” (2013) feita na School of Visual Arts de New York, Beyoncé decretou: “Eu senti que queria seguir os passos de Madonna e ter meu próprio império”.

Em sua nova empreitada musical, o álbum “RENAISSANCE”, lançado dessa vez sem suporte de videoclipes (até então), Beyoncé aponta para o futuro da música (a produção é agressiva e sultuosa), ao mesmo tempo em que a artista propõe uma espécie de minuciosa escavação da música queer e negra do passado. Essa é a carta de amor feita de Beyoncé à seus fãs transviados – quantos de nós já dançamos, suamos e nos sentimos empoderados através dos visuais, timbres e letras que ela tem servido durante todo esse tempo? Ela dedica o disco ao seu tio Johnny, que moldou boa parte de seu senso musical: “Johnny foi o homem gay mais fabuloso que conheci”, sinaliza chamando-o carinhosamente de “madrinha”, rememorando com tristeza o fato de que ele se foi por conta da crise da AIDs.

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A memória continua guiando a narrativa de “RENAISSANCE”, em “BREAK MY SOUL”, Beyoncé sampleia “Show me Love” de Robin S. em, um dos maiores hits de house music mundial, em “PURE HONEY”, ela faz referência à “Miss Honey” (1992) da drag queen Moi Renee utilizando sua entonação e melodia, e em “CUFF IT” utiliza as guitarras da lenda Nile Rodgers. Em “CHURCH GIRL”, ela subverte a música gospel, produzindo um twerk e sampleando James Brown. Num dos pontos altos do disco, “MOVE”, Beyoncé faz feat. com o ícone queer jamaicano Grace Jones – com quem ela flertava há bastante tempo. Na última música, “SUMMER RENAISSANCE”, Beyoncé canta e re-imagina “I Feel Love” (1978), parceria de Donna Summer e Giorgio Moroder, considerada a primeira música techno a atingir as paradas de sucesso ao redor do mundo.

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A abertura do álbum, “I’M THAT GIRL”, produzida ao lado de Terius Nash e Mike Dean (colaborador de longa-data de Kanye West e 2Pac) dá o tom do resto da obra: um disco onde os graves são valorizados e que mantém o corpo em constante movimento. Ainda sobra tempo para experimentar colaborações com novos produtores: Honey Dijon, DJ negra e transgênero de Chicago, assina “COZY”, enquanto A.G. Cook, (DJ e produtor famoso por ser um dos percursores da chamada PC Music [SOPHIE e Charli XCX]), e BloodPop produzem a ágil “ALL UP IN YOUR MIND”.

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Discoballs, sutiãs cônicos, paredes de espelhos: para os visuais do disco de “RENAISSANCE”, Beyoncé tem mergulhado no universo da icônica Studio 54 – a capa re-imagina a imagem de Bianca Jagger chegando no famoso clube de Nova York montada num cavalo, como aconteceu em 1977. Numa de outras imagens, ela aparece como Pepper LaBeija, personagem de “Paris is Burning” (1990) vestida em look feito de ouro. Beyoncé sabe que existe uma ética e estética queer, e que essas “escolhas” representam políticas de resistência num mundo que é hostil às diferenças de raça, gênero e sexualidade: é como se ela estivesse nos vendo e se colocando também dentro de nossos universos como uma de nós.

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Drag queens, transgêneros, queers: Beyoncé quer que você saiba que ela te enxerga – por dentro e por fora – suporte importante numa época em que discutimos direitos e inclusão de pessoas LGBTs em todas as esferas da vida social. Durante o álbum, Beyoncé parece capturar o zeitgeist do momento (RuPauls Drag Race, Legendary, POSE) fazendo referências à cultura ballroom (importante movimento cultural e político de resistência queer que perdura até hoje): “Tens, tens, tens across the board”, ela canta em “HEATED”.

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Sem espaço algum para baladas ou canções de amor, “RENAISSANCE” simula um DJ set de hyperpop, chicago house e disco setentista. É um álbum que abre espaço para liberdade, imaginação e libido. Um registro musical de puro vigor e euforia. Como um caleidoscópio eletrônico, o físico se faz o centro da obra da artista: Beyoncé canta sobre desejo, agência sexual e confiança, apreendendo o espírito por trás dos clubbers – seus vocais oscilam entre sing-talk e sussurros em meio à camadas de sintetizadores que fazem o corpo flutuar. Beyoncé quer conquistar nossos corpos, e nos divertir. Transportando-nos para um universo onde há silhuetas dançando no escuro, fumaça, luzes pulsantes e cheiro de suor. Um lugar transcendental!

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Grandes álbuns de música POP são registros que podem nos divertir, mas que também podem ser pensados através de camadas mais profundas: seus impactos sociais e políticos, as referências visuais e sonoras, etc. “RENAISSANCE” é um disco produzido por uma artista que só tem à si mesma como competição, e que redesenhou as regras do jogo da indústria cultural global, ao lado de grandes gênios como David Bowie, Madonna e Prince.

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Depois de tanto tempo, Beyoncé tornou-se mestre no que faz, e parece querer celebrar coletivamente esse lugar, desta vez tendo a música eletrônica negra e queer como eixo – lugar de onde esse gênero musical veio e permanece existindo através de artistas que promovem viagens emocionais, como essas. Mais do que isso, Beyoncé cria um álbum para que nos lembremos do que somos capazes quando resistimos e dançamos em conjunto, mesmo em períodos difíceis. Renascer é necessário.

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O Renascimento de Beyoncé: Tudo Sobre o Novo Álbum Renaissance
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O Renascimento de Beyoncé: Tudo Sobre o Novo Álbum Renaissance
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Em sua nova empreitada musical, o álbum "RENAISSANCE", simula um DJ set de hyperpop, chicago house e disco setentista. É um álbum que abre espaço para liberdade, imaginação e libido. Um registro musical de puro vigor e euforia.
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