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Antonio Kuschnir
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Antonio Kuschnir Pinta a Pandemia e Ansiedade na Exposição “Choro”

Postado por Ali Prando / 26 November, 2020

Em cartaz em São Paulo, a série é composta por quinze pinturas em óleo e acrílica e reflete sobre a ascensão do poder de julgamento no mundo digital.

Não é novidade que o uso excessivo das redes sociais gera ansiedade e insegurança aos seus usuários, porém, à medida que o contato físico interpessoal precisou ser reduzido – lê-se pandemia – registrou-se um aumento significativo da interferência negativa destes veículos nas vidas das pessoas. Um fato social percebido pelo jovem artista Antonio Kuschnir que você  merece conhecer.

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Antonio Kuschnir

É fato que o distanciamento social, embora necessário, intensifica aflições já presentes na relação da sociedade contemporânea com a tecnologia, e é a partir desta premissa que o pintor carioca Antonio Kuschnir aprofunda suas reflexões sobre o mundo contemporâneo e nos presenteia com “Choro”, uma série de pinturas que ecoam sobre pandemia, redes sociais e ansiedade:

“A história de “Choro” começa (timidamente) antes da própria quarentena. Iniciei os rascunhos iniciais e as primeiras ideias a partir de um episódio muito traumático para mim, que foi o incêndio, em setembro de 2018, do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Lembro de ver e chorar aquela destruição tão desesperadora ao lado da minha mãe, que trabalhou lá por diversos anos. No dia seguinte, rascunhando em um caderno despretensiosamente, surgiu a imagem de uma pessoa chorando, retorcida e machucada. Isso plantou a semente da série na minha cabeça, fiz outros rascunhos a lápis, mas as pinturas só foram começar aos poucos em 2019, ainda processando traumas sociais e também pessoais que eu vivia na época.

Fiz algumas poucas pinturas menores da série “Choro” nesse período, algumas delas estão na exposição. A verdadeira Odisseia que foi pintar essa série começa em 2020. Já em janeiro, quase que como um prenúncio macabro do que ia acontecer nos próximos meses, eu comecei a pintar apenas os “choros”, repetidamente. Em março, com a pandemia, a quarentena, o início das trágicas mortes devido ao virús no nosso país, as pinturas foram ficando maiores, mais violentas, mais machucadas e assustadas. Os choros cresceram, as lágrimas aumentaram de tamanho e passaram a irromper dos personagens como grandes torrentes.

Antonio Kuschnir

Pintar “Choro” foi a minha forma de processar o que eu via de dor ao meu redor, o tanto de sofrimento que assolou nosso país, com inúmeras famílias sendo destruídas pelo vírus assim como pela falta de auxílio e responsabilidade do poder público. A última pintura da série, que é a maior e figura com destaque na exposição, foi realizada em agosto, então foram cerca de 8 meses de trabalho intenso na série apenas durante esse ano de 2020. A minha quarentena, portanto, consistiu em pintar todos os dias, expurgar esses medos que vivemos nas pinturas e daí surgiu a série “Choro””, conta o artista.

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O choro e o grito aparecem nas telas em diálogo com monitores de computador, celulares e espadas – objetos ambíguos de gozo, poder, tortura e morte no mundo contemporâneo. O objetivo de Antonio Kuschnir como artista é que as telas operem como dispositivos de catarse, ou seja, espaços pictóricos que nos permitam confrontar, assimilar e curar nossas feridas estruturais, sociais e afetivas, tão afetadas e intensificadas neste momento de pandemia e pouca socialização.

“A elaboração, conclusão e comercialização da série “Choro”, de Antonio Kuschnir, é uma vitória para o artista, que não parou um segundo de estudar e aperfeiçoar seu material para apresentá-lo ao mundo retratando sentimentos em um período tão difícil para todos”, comenta o curador da exposição Victor Valery.

“A expressividade dos objetos do cotidiano e a violência nas pinturas são alegorias para mostrar o quão fácil é julgar o outro e ser julgado nos dias de hoje, simbolizando que a tecnologia quando mal direcionada pode ser utilizada como ferramenta de disputa de poder e dominação nas relações contemporâneas”, completa Victor Valery.

Antonio Kuschnir

Antonio Kuschnir pulsa arte e pinta desde os 6 anos de idade, quando expos sua primeira obra na EAV Parque Lage. Mais tarde, Kuschnir obteve o 1º lugar em História da Arte na UERJ e Pintura na UFRJ, onde cursa e realizou sua primeira exposição solo em 2019, na Galeria Macunaíma. Tem como influências a Vanguarda Modernista Europeia (Manet, Matisse e Picasso), a pintura e Literatura Modernistas Brasileiras (Portinari e Oswald de Andrade), a mitologia grega e pintores clássicos, como Delacroix:

“Não acho que tenha escolhido ser artista, exatamente, pois apenas tive um momento que percebi que ser artista era a única coisa que eu conseguia me imaginar fazendo para o resto da minha vida. A arte sempre fez parte do meu cotidiano, sempre amei desenhar e, posteriormente, pintar todo dia, e quando não estava pintando eu estava pensando e lendo e conversando sobre Pintura.

Então a arte e o trabalho de artista se impôs sobre mim, e eu percebi que era isso, e nada além disso, que ia me fazer sentir completo e útil para o mundo, ser artista. Depois que tive essa realização, comecei a trabalhar todos os dias para concretizar esse sonho de viver com e pela arte. Pra mim ser artista é ver e viver cada momento como uma possibilidade de criar. É processar as nossas experiências, vivências e o mundo ao nosso redor no sentido de fazer arte”.

Antonio Kuschnir

Em seu trabalho, Antonio Kuschnir utiliza da pintura e do desenho para representar a pluralidade de sensações que permeiam a existência do ser humano e seus desdobramentos na arte. Antonio produz pinturas que buscam, em sua representação pictórica, a investigação da complexidade das relações e emoções humanas, dos seus aspectos mais subjetivos a representações de um imaginário coletivo idealizado:

“Acho que é importante saber e lembrar que todo esse sofrimento não deixou de ser acompanhado também de lutas e de revolta. Não ficamos apenas chorando, mas também nos levantamos contra as injustiças que tanto se acentuaram durante esse período. As imensas manifestações antirracistas que irromperam nos Estados Unidos, durante o auge da pandemia, assim como as manifestações contra os assassinatos racistas que ocorrem diariamente no Brasil, nos mostra que não está ‘tudo perdido’ e sim que essa luta contra a injustiça, a opressão e a exploração é um caminho a trilhar para termos cada vez menos choros, menos derrotas, e cada vez mais conquistas, mais comemorações e vitórias”, elabora Kuschnir.

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Com inspirações no francês Matisse, o brasileiro Cândido Portinari e o espanhol Pablo Picasso, com sua exposição em cartaz na _galeria b_arco, Kuschnir sintetiza em sua arte o que todos nós estamos vivendo agora com os horrores e dissabores causados pela pandemia. Como diz Letrux em seu último disco, “eu estou aos prantos: quem não?”:

“O pior tipo de choro, para mim, é aquele que você não sabe quando vai parar. Aquele que irrompe dos nossos olhos e você não consegue mais controlar a saída das lágrimas e a dor no rosto. É o choro com mais desespero, quando não vemos saída próxima para a situação que nos causa dor”, confessa o artista sobre a inspiração por trás da mostra.

Antonio Kuschnir

A série “Choro”, desenvolvida desde o início da pandemia, tem a _galeria b_arco como primeiro espaço a exibir e comercializar o material, que ficará em exposição até o final do mês de janeiro. Segundo Renato de Cara, responsável pelo convite da exposição, “a pintura de Antonio é cheia de energia e com boas referências históricas”, porém sempre “atualizadas para o contemporâneo”.

Além de experiência de autoconhecimento, a exposição convida o visitante a refletir sobre a conjuntura política, a desigualdade e os padrões sociais, encarando suas feridas para transformá-las. O artista traz luz à importância da arte como meio de questionamento e revolução em nossa sociedade – e como objetos do cotidiano podem afetar tanto positiva quanto negativamente nossas relações com pessoas e com o mundo. A divulgação da série no exterior será pelo selo VANDL ART (@vandlart).

SERVIÇO:

“Choro”Antonio Kuschnir
Curadoria: Victor Valery
Período: 28/11/2020 a 31/01/2021 na _galeria b_arco
Onde: Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426, Pinheiros – São Paulo⁠
Visitação: Seg-Sex 10h às 17h | Sáb 11h às 17h (ou com agendamento)

Fotos: Divulgação

A exposição obedece todas as normas de segurança da OMS. O uso de máscara é obrigatório e há álcool em gel disponível em vários pontos do espaço.

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Em cartaz em Sao Paulo, a série "Choro"de Antonio Kuschnir é composta por 15 pinturas em óleo e acrílica e reflete sobre a ascensão do poder de julgamento no mundo digital.
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