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Quentin Tarantino
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9º Filme de Quentin Tarantino Homenageia a Hollywood de 1960

Postado por Alisson Prando / 20 August, 2019

Em seu mais novo filme “Era Uma Vez em… Hollywood”, Tarantino reune grande elenco e faz auto-referências.

O nono filme de Quentin Tarantino finalmente chegou aos cinemas. Tarantino dispensa apresentações, é um dos diretores mais celebrados desde os anos 90 e apresenta uma estética autoral, com cenas de violência explícita, diálogos irônicos e cores marcantes.

“Era Uma Vez em… Hollywood” não se distancia do restante da obra de Tarantino, mantendo a sua coerência. O filme revisita a Los Angeles de 1969 onde o cinema estava em transformação, através da história do astro de TV Rick Dalton (interpretado pelo vencedor do Oscar Leonardo DiCaprio) e seu dublê de longa data Cliff Booth (interpretado pelo vencedor do Oscar Brad Pitt), o longa atravessa uma indústria que nem os próprios atores conseguem mais reconhecer.

O filme teve estreia mundial em Cannes, em maio de 2019, e foi lançado nos cinemas norte-americanos em Julho e em Agosto na Europa. A crítica especializada classificou “Era Uma vez em… Hollywood” como “a carta de amor de Quentin Tarantino aos filmes dos anos 60”, destacando sua escolha por um elenco primoroso.

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O ELENCO

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O filme traz grande elenco como Leonardo DiCaprio, Brad Pitt e Al Pacino

“Era Uma vez em… Hollywood” conta com um elenco de peso, que só alguém como Tarantino seria capaz de reunir. O filme conta com ninguém menos que Brad Pitt e Leonardo DiCaprio nos papéis centrais. Co-estrelando, Margot Robbie, Emile Hirsch, Margaret Qualley, Timothy Olyphant, Austin Butler, Dakota Fanning, Bruce Dern, e Al Pacino, aparecem pelo filme, todos brilhantes em seus papéis. Eles fazem parte de um grande elenco que estrelam “histórias múltiplas em um tributo moderno aos contos de fadas para os momentos finais da era de ouro de Hollywood”.

Em seu novo filme, Quentin Tarantino aborda bastante a questão da crise do “star system” norte-americano com idades mais avançadas – não se sabe ao certo se ele faz críticas a esse sistema ou se ele está ironizando tudo isso, afinal de contas, ainda estão lá as cenas de reciclagem de masculinidade onde Brad Pitt, agora aos 55 anos, aparece sem camisa. Tarantino criou este roteiro especialmente para DiCaprio e Pitt, já que havia trabalhado com ambos em filmes anteriores, e eles também pensam sobre essas perspectivas em relação a descartabilidade do mercado cinematográfico.

A POLÍTICA

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Margot Robbie personifica a liberdade hippie dos anos 60 na pele de Sharon Tate

Fã de cinema raiz, Tarantino criou seu filme inspirado tanto nos filmes da Hollywood dos anos 60, quanto na TV da mesma década. Na época, existiam grandes debates nos Estados Unidos sobre a Guerra do Vietnã, o movimento hippie e a transformação da juventude norte-americana. Polanski lança “O Bebê de Rosemary”, um filme que quebrou paradigmas em Hollywood.

Casado com Sharon Tate, uma das atrizes em ascensão da época, a atriz foi assassinada ainda grávida aos 26 anos pela família de Charles Manson – os criminosos foram condenados à prisão perpetua – é incrível pensar como apenas enquanto mandante Charles tenha influenciado tantos jovens com suas perspectivas racistas e eugenistas nos Estados Unidos.

“Era Uma Vez em… Hollywood” acaba culminando todos esses temas e mistura gêneros como a Hollywood glamourosa, o faroeste e outros. Quentin Tarantino coloca toda a sua memória fotográfica na tela, desde as ruas de Los Angeles por onde ele passeava quando criança, até personagens que quebram a dualidade entre ficção e realidade.

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A TRILHA SONORA

Tradicionalmente, as trilhas-sonoras de Tarantino são extremamente icônicas: quem não se lembra das cenas de ação de “Kill Bill” regadas a Rock’n’Roll ou mesmo “Um Drink no Inferno”? “Era Uma Vez em… Hollywood” tem em sua trilha Buchanan Brothers e Los Bravos, impulsionando o ritmo do filme.

Pensando na estação KHJ, muito popular na década de 60, a rádio era especializada em tocas músicas para pessoas que se deslocavam de carro, tocando assim The Box Tops, Mitch Ryder e Deep Purple. A equipe de Tarantino também fez consultas entre os círculos de fãs das ondas médias e localizou 17 horas de gravações da KHJ feitas entre 1968 e 1969.

Ouvintes que gravaram programas completos, com as apresentações de locutores, a publicidade, o tempo. Embora Lana Del Rey e outras artistas estivessem dispostas a gravar músicas para o filme, Quentin Tarantino quis manter-se fiel aos anos 60 e garantiu que só entrassem músicas dessa época na trilha sonora.

AS REFERÊNCIAS POP

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Quentin Tarantino recria a Hollywood Boulevard de 1969 em “Era uma vez em Hollywood”

Antes de tornar-se diretor de cinema, Quentin Tarantino foi funcionário de uma extinta videolocadora, tal emprego deu bastante combustível para que o cineasta criasse seus próprios filmes, recheados de referências POP. “Era Uma Vez em… Hollywood” possui referências de filmes como “O Bebê de Rosemary”, “Pretty Poison”, “O Vale das Bonecas”, “2001: Uma Odisséia no Espaço”, e a sitcom The Dick Van Dyke Show.

Para a construção do filme, também foi usado um áudio de “Batman”, a mansão Playboy e o mesmo Cadillac de Ville de “Cães de Aluguel”. Muitos locais famosos da área de Los Angeles aparecem ao longo do filme, incluindo o Fox Westwood Theatre, o Fox Bruin Theatre, o Cinerama Dome, o El Coyote Cafe, o Musso & Frank Grill.

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O Filme relembra momentos dos bastidores do cinema e da televisão nos anos 60

“Era Uma Vez em… Hollywood” é preenchido com muitas referências ao mundo do entretenimento. O título em si é uma referência a “Era Uma Vez no Ocidente” e “Era Uma Vez na América”, ambos dirigidos por Sergio Leone. A cena em que Dalton usa um lança-chamas é uma clara auto-referência de Tarantino ao seu “Bastardos Inglórios”.

Em uma cena em que Sharon Tate entra em uma livraria Larry Edmunds, ela compra uma cópia de Tess of the D’Urbervilles. Roman Polanski dirigiu a adaptação cinematográfica do livro, intitulado Tess, e dedicou-o a Tate. A música que é cantada por membros da Família Manson nas ruas de Los Angeles é “I’ll Never Say Never To Always”, que foi escrita por Charles Manson.

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A MODA

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Os grandes figurinos têm o poder de transportar o público para um tempo e para um lugar sem que se diga nada

Com consultoria de Arianne Phillips, Tarantino recriou perfeitamente a moda dos anos 60 para seu filme. Para a caracterização dos personagens centrais, Arianne optou por botas de cowboy, camisas com estampas hawaianas, jaquetas de couro da Prada, óculos aviadores Tom Ford, camisas jeans e blazers em tons terrosos.

Os figurinos do filme foram em sua maioria comprados em lojas vintage, brechós, depois que Arianne viu uma longa lista de referências de Quentin Tarantino para o desenvolvimento da película, sendo as principais, figuras de Steve McQueen e Paul Newman. Sobre seu trabalho no filme, em entrevista, Phillips declarou:

“Eu acho que meus elementos favoritos sobre o estilo de 1969 é o fato de que, como em 2019, é um momento de mudança. Você pode ver que existem todos esses microcosmos do mundo. Então eu realmente me relacionei com isso. E também, o que vestimos é nossa identidade e como queremos que o mundo nos perceba.

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Cliff Booth, personagem de Brad Pitt, traz um clássico do guarda-roupa tarantiniano: a camisa havaiana

Então eu sempre acho interessante ver as escolhas que as pessoas fazem. Eu sou infinitamente fascinado por isso. E eu acho que 1969, foi o começo de “vale tudo”. Antes, como os anos 50, as pessoas pareciam mais as mesmas. Mas o ’69 é realmente desafiador porque é um tempo de mudança para os figurinos e também para a nossa história. E eu sinto que é o mesmo agora. E assim como agora, você pode criar em qual tribo você pertence.”

QUENTIN TARANTINO: BASEADO EM FATOS REAIS?

A FAMÍLIA CHARLES MANSON

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Ator Damon Herriman em “Era Uma Vez em… Hollywood” no papel de Charles Manson

Ambientado na época das ações malignas da seita de Charles Manson, “Era Uma Vez em Hollywood” toma certas liberdades criativas com os fatos reais que transcorreram no verão de 1969. Na virade dos anos 70, a seita de Manson realmente existiu. O serial killer usava persuasão e drogas (especialmente LSD) para manter o controle de sua “família”. O criminoso afirmava que uma guerra racial iria acontecer, e que seus seguidores deveriam se esconder no deserto para assumirem o controle do mundo após o conflito.

Em “Era Uma Vez em… Hollywood”, Rick Dalton e Cliff Booth têm interações com Charles Manson. Os encontros nunca aconteceram na vida real. Na época, Manson e seus seguidores viviam no Rancho Spahn, onde vários faroestes haviam sido filmados.

A MORTE DE SHARON TATE

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Mesmo com poucas falas, o papel de Margot Robbie como Sharon Tate foi essencial para transmitir a essência dos anos 60

Em 1969, Sharon Tate, esposa e atriz de Roman Polanski estava grávida e chegou a implorar por sua vida antes de sofrer inúmeras facadas. Esse crime aumentou a paranoia nos Estados Unidos nos anos 70. Tarantino toma liberdade através desse fato para contar a sua história em “Era Uma Vez em… Hollywood”, principalmente no ato final do filme – o mais surpreendente.

Amigo de Sharon Tate, o ator Steve McQueen quase esteve presente na casa da atriz na noite dos assassinatos. O ator havia sido convidado para uma reunião com os amigos, mas declinou do convite para passar a noite com uma jovem misteriosa. Os crimes da noite de 8 de agosto de 1969 terminaram com 5 vítimas: Sharon Tate, o cabeleireiro Jay Sebring, Abigail Folger, Wojciech Frykowski e Steven Parent.  Os atos de brutalidade foram cometidos por Tex Watson, Susan ‘Sadie’ Atkins, Linda Kasabian e Patricia Krenwinkle. Watson estava com uma arma, e as mulheres usavam facas.

A RECEPÇÃO DO PÚBLICO

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A crítica considerou a atuação de DiCaprio como uma das melhores de sua carreira

“Era Uma Vez em… Hollywood” se tornou a maior bilheteria de Quentin Tarantino em sua carreira, com uma estreia de US $ 41 milhões e US $ 179 milhões em todo o mundo até o momento, colocando o filme no top 15 atual de 2019. O filme é o atual favorito do Oscar para Melhor Filme. Isto é grandioso porque Quentin Tarantino nunca conseguiu uma vitória de ‘Melhor Filme’ para qualquer um dos seus nove filmes, embora eles certamente tenham estado em situação de indicação previamente.

Em maio, o filme foi exibido em Cannes, ao final da projeção, o público ficou de pé e aplaudiu Tarantino por vários minutos, 25 anos depois dele ter recebido a Palma de Ouro por “Pulp Fiction – Tempo de Violência”. Pitt estava visivelmente emocionado, enquanto a atriz britânica Tilda Swinton, que não atua no filme, tampouco pôde conter as lágrimas. Era a redenção do diretor, que segundo a crítica especializada, não entregava um filme tão impactante quanto este.

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Fotos: ®Reprodução | Sony Pictures

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