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Bruce Weber
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O Hedonismo nas Lentes do Renomado Fotógrafo Bruce Weber

Postado por Ali Prando / 29 March, 2021

Entre o nostálgico e o moderno, Bruce Weber moldou a fotografia em cinco décadas diferentes.

Aniversariante do dia, aos 75 anos, tendo fotografado para marcas como Calvin Klein, Ralph Lauren, Giorgio ArmaniPirelli, Revlon e Gianni Versace, além das revistas Vogue, GQ, Vanity Fair, Elle, Life, Interview, e Rolling Stone, Bruce Weber é tido como um daqueles fotógrafos de ouro do século 20 que merecem ser enaltecidos pelo conjunto da obra.

Bruce Weber

Garrett Neff em Miami, Flórida, para “Calvin Klein Underwear” (2008)

De origem judia, nascido na Penssylvania, suas primeiras fotografias de moda apareceram na GQ ainda nos anos 70. Inicialmente ingressou em Estudos de Teatro em Ohio, antes de se mudar para New York para estudar cinema e depois mudar para o curso de Fotografia, seguindo o incentivo da fotógrafa americana Diane Arbus, não é surpresa que Bruce Weber seja extremamente influenciado pelo cinema.

Frequentemente, o fotografo cita o cinema britânico como uma de suas maiores inspirações, em especial ‘The Sporting Life’, filme de 1963 que mostra a obsessão de um minerador de carvão que tem o sonho de se tornar um atleta profissional:

“Sou um grande fã do cinema britânico dos anos 50, 60 e 70. De certa forma, meio que se tornou minha escola de cinema. Para mim, realmente significou algo vê-los”.

Bruce Weber

Projeto “Broken Noses” de Bruce Weber com boxeador Andy Minsker (1987) | Cartaz do Especial “The Sporting Life” (1963)

Antes de se tornar um celebrado fotógrafo, Bruce Weber foi modelo. Assim como muitas pessoas que ainda estão definindo os rumos de suas vidas aos 20 e poucos anos, e pressionado a bancar seus estudos na universidade, Weber trabalhou com nomes importantes da fotografia de moda, como Richard Avedon, Saul Leiter e Francesco Scavullo. Em sua entrevista com o diretor de arte Sam Shahid, Weber fala sobre onde tudo começou.

“Eu realmente comecei a modelar por necessidade no início… Eu meio que sabia que queria fazer algo que fosse visual, que eu pudesse olhar, e pudesse ter contato com outras pessoas. Eu era muito tímido, e a câmera para mim era como um aperto de mão ou um abraço.” Weber, de forma irônica e autodepreciativa, continua proclamando que “era o pior modelo do mundo” e, para superar sua sensação de desconforto, brincava com seu cachorro pelos cenários.

Bruce Weber

Click de Bruce Weber para a edição 384 dedicada ao Egito da publicação francesa “Holiday Magazine” (2019)

Embora não tenha obtido sucesso enquanto modelo, as experiências nos sets fizeram com que Weber ganhasse gosto pela arte de fotografar e assim, ele passou para o outro lado das câmeras. Nos anos 1970, Nan Bush, agente de longa data, conseguiu assinar um contrato com a Federated Department Stores para que Weber fotografasse o catálogo postal da Bloomingdales de 1978, o que foi ligeramente importante para a carreira do jovem fotógrafo, mas a glória viria alguns anos depois.

Nos anos 1980, Bruce Weber chama atenção do mainstream quando fotografa a campanha para a Calvin Klein estrelada pelo astro do cinema hollywoodiano Richard Gere. Já nessa década, Weber expunha aquelas que seriam suas marcas estéticas: fotos diretas, em preto e branco, apresentando corpos em tons ambíguos, entre inocência e sensualidade. Clicada em 1982, sua fotografia para Calvin Klein do atleta olímpico Tom Hintnaus, usando salto em vara, e vestindo nada apenas cuecas brancas é uma imagem simplesmente icônica para a história da moda.

Bruce Weber

Garrett Neff  para “Calvin Klein Underwear” (2008) | Tom Hintnaus para “Calvin Klein Underwear” (1992)

Se por muito tempo o tipo de corpo musculoso e sarado com barrigas que mais parecem tanquinhos perdurou o imaginário da moda, é porque Bruce Weber contribuiu bastante com seus cliques clássicos. Observando seu corpo de trabalho até hoje, Weber realmente definiu os padrões de beleza norte-americanos vistos tanto na moda, quanto no cinema.

Embora impactada pela fotografia de Weber, não são todas as pessoas que apreciam seu trabalho visual. Com alguma frequencia, o artista visual enfrentou backlash da opinião pública que o acusava de ser excessivamente sexual. O olhar de Weber focado na forma masculina vira de cabeça para baixo nosso diagrama visual, no qual geralmente são as mulheres que se submetem a esse tipo de exame minucioso ou olhar sexual.

Bruce Weber

Saville Dorfman, Diogo Gomes e Emily Ratajkowski para “CR Fashion Book” (2013) | Trevor Signorino para “V MAN” (2015)

O imaginário de Bruce Weber é povoado de homens atléticos, queixos quadrados, senso de otimismo e verões quentes que não tem fim. Weber capturou imagens de ansiedade que os americanos tinham de si mesmos ou simplesmente deu luz a um universo que era fruto de seus próprios desejos ou fantasias? Questão impossível de resposta.

Hoje, o fotografo tem cerca de 30 livros com sua assinatura, incluindo a série All American, várias monografias, um número crescente de filmes e créditos de imagens em movimento, e pode se orgulhar de mais de 60 exibições – tudo graças à sua combinação de carga sexual, naturalismo, classicismo e nostalgia.

Bruce Weber

Michael Yerger na edição Verão da “Man About Town” (2019) | Modelo no lago Upper St. Regis para “Vogue América” (1995)

Interessado em chocar o olhar muitas vezes purista e conservador norte-americano sobre sexo, Bruce Weber tem uma carreira muitas vezes lida enquanto controversa. De seus primeiros trabalhos publicados no SoHo Weekly News, apresentando uma série então chocante de homens vestindo apenas roupas íntimas, seu trabalho com a Abercrombie & Fitch que captura uma obsessão pós-milênio com hipermasculinidade, até seus cliques de David Bowie e Kate Moss, o fotografo ampliou a maneira como a sexualidade era retratada na história da imagem comercial.

Explorando a juventude, Bruce Weber também foi responsável por fotografar Leonardo DiCaprio segurando grandes lábios que diziam ‘Me beije’ para a capa da revista Interview. Em Fevereiro de 1992, ele fotografou o tonificado Mark Wahlberg segurando seu volume com cuecas Calvin Klein – algo que a marca ainda ressignifica e reedita em suas mais recentes campanhas, seja com os astros teen Justin Bieber, Nick Jonas ou Shawn Mendes.

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Uma das dezenas de campanhas que Bruce Weber clicou para a marca americana de jeanswear “Abercrombie & Fitch” (2001)

Fanático por viagens, Weber clicou o Brasil em sua série ‘O Rio de Janeiro’ durante sua estadia na cidade maravilhosa em 1986. Sensual e lânguida, o acervo está repleto de imagens de homens e mulheres bronzeados e ágeis nas praias, hotéis, restaurantes e boates cariocas.

Os tons sépia aumentam a sensação de calor e pele beijada pelo sol, onde a única maneira de escapar do sol por um tempo é se entregando a uma aventura erótica. Não é à toa que este livro despertou em tantos anseios de viajar para o Brasil e em um caso de amor ao longo da vida com a cultura do Rio de Janeiro. Dos cliques mais famosos da série feita em terras cariocas é a série de fotografias feitas com a lenda do Jui Jitsu brasileiro, Rickson Gracie.

Bruce Weber

Bruce Weber registra a exuberância juvenil e camaradagem sexy do brasileiro Rickson Gracie no livro “O Rio De Janiero” (1986)

A fotografia não apenas captura a fisicalidade absurda de Rickon Gracie, mas também oferece um olhar íntimo sobre sua família. Em uma imagem, Weber captura a exuberância e a felicidade quando Rickson joga seu filho (o fabulosamente chamado Rawkson) para o ar e eles sorriem um para o outro em pura alegria não adulterada.

Nos anos 2000, um dos projetos mais ambiciosos de Bruce Weber foi a exposição ‘DETROIT’ feita em 2014, no Instituto de Artes de Detroit. A exposição tinha fotografias de Iggy pop, Aretha Franklin e Kate Moss na cidade muitas vezes negligenciada pelo Estado norte-americano. A mostra exibe então uma compilação de imagens humanizadas de um local que muitas vezes era retratado a partir da pobreza, feitas pelo fotografo entre 2006 e 2013.

Bruce Weber

Sexy symbols dos anos 90, os atores Leonardo Di Caprio (1994) e Mark Wahlberg  (1992) estampam a capa da revista “Interview”

Não satisfeito em fotografar, Bruce Weber também atuou muitas vezes enquanto diretor e cinegrafista. Em 1987’s Broken Noses, Weber documentou os meninos adolescentes que lutaram em Portland, no Mount Scott Boxing Club de Oregon. Já em 1998, teve um documentário indicado ao Oscar, “Let’s Get Lost”, que narra a vida do trompetista de jazz e viciado em heroína Chet Baker.

O documentário “Chop Suey” de 2002, no qual Weber explora o mundo em torno do lutador ocidental e modelo Peter Johnson. O artista visual também produziu incontáveis filmes de moda para nomes como Yves Saint Laurent, Moncler e Versace; e videoclipes de “Being Boring” dos Pet Shop Boys em 1990 e “I Get Along” em 2002. É preciso reconhecer: o portfólio de imagens em movimento de Weber é tão diverso quanto o de suas fotos.

Bruce Weber

Mark Wahlberg por Bruce Weber para “Calvin Klein Underwear” (1992) | Nick Jonas por Yu Tsai para “Flaunt Magazine” (2014)

Bruce Weber criou algumas das imagens mais desejáveis da indústria da moda e, por meio de suas campanhas Calvin Klein e Ralph Lauren, poderia reinvindicar  sozinho – se quisesse – o crédito por criar a imagem da beleza jovem e despreocupada dos  americanos que se incorporou à consciência de todos para sempre.

Curtiu? Conheça também o trabalho de outras lendas da fotografia de moda como o provocador Steven Meisel, o surrealista David LaChapelle, o ícone da cultura pop Steven Klein, a dupla Mert & Marcus, o experimental Nick Knight, o fotógrafo das estrelas Mario Testino, o retratista preto e branco Herb Ritts e o retratista dadaísta Man Ray.

Fotos: Bruce Weber

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