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Chromatica
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O Zeitgeist Sci-fi de Lady Gaga no Novo Álbum Pop ‘Chromatica’

Postado por Ali Prando / 30 May, 2020

Em seu sexto disco inédito, Lady Gaga faz reflexões na pista de dança.

Sem fazer grandes promessas, Lady Gaga – híbrido entre a artista e a persona de Stefani Germanotta, 34 anos – lançou nesta semana seu sexto registro de inéditas, ‘Chromatica’. Tendo garantido seu nome na história da cultura POP através de hits como “Just Dance” (seu primeiro single lançado com a benção do rapper Akon), “Bad Romance” (o “Thriller” da Geração Millennials) e “Born This Way” (música embalada por House Music que foi a primeira a conter a palavra ‘trans’ a atingir o #1 da Billboard Hot 100). Gaga é uma compositora, produtora, cantora e atriz talentosa.

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Em sua nova empreitada, Lady Gaga distancia-se da imagem de “america’s sweetheart” que construiu durante os últimos anos, quando tomou uma guinada “mais conservadora” de sua carreira – lançou o álbum country Joanne’, fez um disco de jazz ao lado de Tonny Bennet, se apresentou cantando o hino nacional norte-americano, em uma apresentação comedida no Super Bowl, quando os Estados Unidos já estava sob o Governo Trump, e ganhou o Oscar de Melhor Canção por ‘Shallow’, trilha original do filme ‘Nasce Uma Estrela’ em parceria com o ator e diretor Bradley Cooper.

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Agora, aparentemente, a artista quer voltar a alimentar seus Little Monsters (apelido que deu a sua fã base), retornando às origens e às influências que marcaram sua estética no começo de sua jornada: liricamente direta, com sonoridade orientada por música eletrônica e eurodance, e uma deliciosa moda extremamente POP, camp e histriônica.

WELCOME TO CHROMATICA

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A persona deste disco é inspirada pela cultura cyberpunk e cinema sci-fi: ‘Chromatica’ é uma espécie de planeta onde não existe tempo ou distância, um lugar inclusivo onde todas as cores, sons e seres podem coexistir em harmonia (quase que uma inspiração no nosso logo e manifesto. Leia sobre nesse link haha).

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O planeta-fantasia foi criado com direção criativa de Nicola Formichetti, parceiro de longa-data de Gaga, styling de moda de Marta Del Rio, enquanto a fotografia foi feita pelo alemão Norbert Schoerner, passeando por referências de ‘Mortal Kombat’, ‘Mad Max’, ‘Barbarella’ (um dos filmes mais celebrados de Jane Fonda feito nos anos 1960) e ‘Alien’ (um clássico filme estadunidense estrelado por Sigourney Weaver, onde norte-americanos discorrem simbolicamente sobre seus medos em relação ao comunismo).

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A capa também relembra um dos maiores temas da carreira de Lady Gaga, a fama. Antes, em sua ‘The Monster Ball Tour 2.0’, durante a performance ‘Paparazzi’, feita durante seu apogeu artístico, Gaga flertava com a fama como se ela fosse um grande monstro, metaforizando as lógicas quase nunca saudáveis com as quais funciona a indústria da cultura POP  – onde  afinal, só importam os números de seguidores, box scores, gravadoras, o conglomerado de tabloides e a capitalização do talento.

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Durante registros como ‘Plastic Doll’, ‘Free Woman’ e ‘911’, a artista aborda a objetificação de mulheres no audiovisual e discursa sobre estar no limite da sobriedade por conta de pressões externas. Por vezes, os visuais utilizados até agora fazem referências às artistas da geração Tumblr, como Grimes, Brooke Candy ou Charli XCX, algo até então inédito na carreira de Lady Gaga, que costumava lançar as tendências e não segui-las.

O som de ‘Chromatica’ foi polido por BloodPop (Michael Tucker, 29 anos), produtor responsável por renovar a identidade sonora de artistas como Justin Bieber (Purpose) e Madonna (Rebel Heart). Tendo atuado enquanto produtor de ‘Joanne’, disco country de Lady Gaga produzido majoritariamente por Mark Ronson, agora o músico aparece muito mais desenvolto e confiante o suficiente para finalizar o álbum que conta ainda com participações do mago-POP Max Martin, a produtora de PC music SOPHIE, o DJ francês Madeon e Skrillex, DJ conhecido por levar o dubstep ao mainstream.

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‘Chromatica’ não é feroz e experimental como o quarto álbum ‘Artpop’, e nem tão denso e original quanto o terceiro álbum ‘Born This Way’ – na verdade, o disco pega carona em uma sonoridade já feita na década passada por artistas como Katy Perry (Walking on Air, Swish Swish), Madonna (Living For Love) e Kiesza, para quem BloodPop já produziu remixes (Hideaway, Giant in My Heart).

Para trazer um tom cinematográfico, Lady Gaga recrutou Morgan Kibby, criador das interludes ‘Chromatica I, II e III’. Talvez, a intenção aqui seja desafiar a era do streaming, onde os ouvintes são cada vez mais estimulados a ouvirem músicas randômicas em playlists variadas. Do começo ao fim, assim como Madonna fez em seu icônico ‘Confessions on a Dancefloor’, Gaga quer nos contar uma história. O álbum funciona então como um DJ Set.

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Lady Gaga não parece deslocada em nenhuma das músicas, afinal de contas, a dance music é a sua casa e é onde ela reina com folga.

THIS IS MY DANCE FLOOR I FOUGHT FOR!

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Lançado em meio a uma pandemia, o êxito de ‘Chromatica’ é apostar despretensiosamente em nostalgia, passeando por estilos como dance, orchestral, midtempo, deep, e progressive music. O disco conta com inúmeros samples, de Selena Gomez (‘Love You Like a Lovesong’ em ‘911’) e Madonna (‘Vogue’ e ‘Rescue Me’ em ‘Babylon’), indo The Prodigy e Björk (‘Breathe’ e ‘Crystalline’ em ‘Sine From Above’).

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Mirando em públicos mistos, Lady Gaga arrasta Elton John para a sua estética e faz o veterano cantar em camadas dance eufóricas em ‘Sine From Above’ – ponto alto, já que o esperado aqui seria uma balada romântica regada a pianos ou teclados. Angariando os streams de fãs mais jovens de k-pop e cooptando o mercado POP oriental, Lady Gaga propõe dueto com a girlband Blackpink em ‘Sourcandy’. Já o POP mais radiofônico com Ariana Grande acontece em ‘Rain on Me’, produzida por Tchami, segundo single do disco, que conta com videoclipe dirigido por Robert Rodriguez.

YOU LOVE THE PAPARAZZI, LOVE THE FAME, EVEN THOUGH YOU KNOW IT CAUSES ME PAIN, I FEEL LIKE I’M IN A PRISON HELL

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Bem distante do frescor e espírito vanguardista do início da carreira, Gaga faz pela primeira vez em muito tempo um arsenal sonoro acessível, nos oferecendo um possível respiro em meio ao caos global – são letras de autoafirmação, emancipação e liberdade, enquanto outras são nítidos pedidos por ajuda, tendo como ponto comum a honestidade.

Numa narrativa a la ‘Alice do País das Maravilhas’ contemporânea, com referências noventistas, de ‘Crystal Waters’ a ‘Stardust’, ‘Chromatica’ pode ser uma porta de entrada para um novo capítulo da carreira de Lady Gaga, onde a multiartista aparece madura o suficiente para encarar o sublime e a tragédia de ser quem ela é.

Vamos agora ouvir o tão aguardado álbum? Coloque os fones ou aumente o som que o play está aqui!

LADY GAGA – CHROMATICA
Lançamento: 29 de Maio de 2020
Gravadora: Interscope / Universal Music
Gênero: Dance/Pop

Fotos: ®Reprodução

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O Zeitgeist Sci-fi de Lady Gaga no Novo Álbum Pop 'Chromatica'
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O Zeitgeist Sci-fi de Lady Gaga no Novo Álbum Pop 'Chromatica'
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No sexto álbum de inéditas, Lady Gaga volta as raizes da música pop e bebe da cultura cyberpunk e cinema sci-fi para criar um mundo colorido em Chromatica.
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