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Tudo Sobre A Estetização da Loucura No Filme do Coringa

Postado por Alisson Prando / 26 October, 2019

Como ‘Coringa’ tem impactado o cinema blockbuster ao redor do mundo?

Desde que estreou nos cinemas ao redor do globo, ‘Coringa’ tem dividido as opiniões do público e da crítica especializada. Dirigido por Todd Phillips, jovem diretor que encara seu primeiro longa realmente sério, ‘Coringa’ espanta não por sua violência gráfica, mas primordialmente pelo talento que transborda de Joaquin Phoenix, conhecido por ‘Ela’ e ‘Gladiador’.

‘Coringa’, apesar de se passar na década de 80 na cidade fictícia de Gotham, do mesmo universo de Batman, conecta-se com o nosso tempo: o serviço público de educação, saúde e segurança são completamente sucateados. O filme conta a história de Arthur Fleck, um palhaço freelancer que sofre com doenças mentais e logo, por conta da negligência do Estado, não recebe mais seu tratamento psiquiatrico e médico.

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Na nova produção da Warner Bros, o Coringa é um homem que sofre de problemas psicológicos e leva uma vida nada fácil

Nesse cenário de agonia governamental, Fleck passa a desenvolver delírios e aos poucos, torna-se um psicopata, desencadeando uma verdadeira revolução aos cidadãos daquela cidade que já não podem mais serem oprimidas.

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Com orçamento relativamente baixo – US$ 55 milhões, o filme já arrecadou 12 vezes mais até agora – mais de US$ 700 milhões. O sucesso do filme é tamanho que após a primeira exibição no Festival de Veneza, o público, ao fim da sessão, aplaudiu de pé por oito minutos. Mas o que faz de ‘Coringa’ um dos filmes mais importantes dessa década? Confira nossa análise minuciosa dessa obra de arte dos cinemas:

A POLÍTICA

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O filme recebeu classificação de 16 anos no Brasil

Talvez esse tenha sido o ponto mais discutido desde a estreia de ‘Coringa’: o que está por trás de suas políticas? O filme oferece, de fato, soluções ou provocações emancipatórias para o seu público? É justo que àqueles que foram esquecidos pelas instituições de poder tenham alguma chance de vingança?

Por ter um tom bem mais sério, soturno e obscuro que a maioria dos filmes de super-heróis, é possível dizer que ‘Coringa’ desde já é um clássico que estabelece um novo patamar para os filmes do gênero. Mas não é só por isso que o filme tem deixado o público e a crítica estarrecidos.

O cenário global político não é dos mais promissores – é possível falar em termos de uma democracia colapsada? – os líderes de Estados atuais nas Américas apoiam em suas declarações políticas que são verdadeiras atrocidades em relações aos direitos humanos e talvez seja justamente com esse paradigma que o diretor Todd Phillips esteja flertando – não é a toa que o pai de Batman, Thomas Wayne, chama os moradores de Gotham City de “palhaços”.

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Esse é o primeiro papel de Joaquin Phoenix extraído de uma HQ

‘Coringa’ conta a história do cidadão médio, aquele que foi esquecido, que não goza de luxos, mas sim de humilhações e aviltamentos cotidianos – um cidadão com a sua subjetividade aniquilada, que não tem direitos. Edipiano, Arthur, antes de tornar-se o dúbio revolucionário Coringa, pergunta-se quem é seu pai? Por que ele o negligenciou? Sua terapeuta aliás, faz consultas protocolares e o escuta, mas não consegue ouvi-lo realmente. No trabalho, Arthur é constantemente provocado. O que resta então para Arthur, se não produzir alguma forma de vingança?

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Talvez seja preciso sentenciar: não é o louco que é perverso, mas a sociedade em que ele vive. Chocante e imprevísivel, ‘Coringa’ é um longa que faz um estudo complexo e intenso de um dos personagens mais importantes para a saga de Batman – seus maiores trunfos são confundir o espectador, a ponto de sensibiliza-lo para com os dramas de Arthur e ao mesmo tempo criar repulsa para as soluções que Arthur encontra para externalizar seus monstros. ‘Coringa’ é sobretudo um filme sobre a cultura de violência, que assusta, perturba e encanta.

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Segundo o ator Joaquin Phoenix, a parte mais difícil de interpretar o vilão foi encontrar e aperfeiçoar a risada

Entre acertos e contradições, ‘Coringa’ produz uma resposta estética no mínimo interessante em relação aos tempos que vivemos – acostumados a violência, contanto que elas pareçam justas – ou melhor, que beneficiem aqueles que tradicionalmente são privilegiados historicamente, o jogo de linguagens e inversões que ‘Coringa’ demonstra pode irritar os mais conservadores.

Produzindo uma espécie de estetização do anarquismo, do caos e da loucura, ‘Coringa’ logra milhões de dólares agenciando o afeto de ressentimento das pessoas em relação ao Estado – o cinema é um jogo perigoso, e esse mesmo diálogo já foi aberto por longas como ‘Matrix’ ou ‘Clube da Luta’. Será que se o personagem realmente existisse, ele deixaria impune os executivos da Warner Bros., por exemplo? De qualquer maneira, o filme e a construção da narrativa do personagem não giram em torno de uma revolta ou um levante, como alguns críticos quiseram fazer crer, mas sim da crueldade da sociedade com os que “não se encaixam”.

O ELENCO

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O roteiro foi escrito tendo o Joaquin Phoenix em mente como o papel de Coringa

Inicialmente, a Warner queria que Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio fossem respectivamente diretor e protagonista de ‘Coringa’, mas por questões de agenda, a parceria não aconteceu – DiCaprio estava escalado para ‘Era Uma Vez em… Hollywood’ de Quentin Tarantino e Scorsese já havia firmado parceria com ‘O Irlandês’ para a Netflix.

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Posteriormente, a DC Comics encabeçou Scott Silver e Todd Phillips para a elaboração desse roteiro ambicioso, que foi iniciado ainda em 2016. Para a criação, foi usada como base ‘Batman: The Killing Joke’, publicada em 1988, embora Phillips e Silver tivessem liberdade criativa para extrapolar os quadrinhos. As filmagens ocorreram principalmente em New York, e esse é o primeiro longa derivado da franquia de ‘Batman’ a receber classificação indicativa de 16 anos, por conta de seu conteúdo violento.

Como atores principais, Joaquin Phoenix foi responsável por se encarregar de Coringa, papel que antes foi feito por astros como o brilhante Heath Ledger, e também a interpretação cômica de Jared Leto. Para interpretar Coringa, Joaquin perdeu mais de 23 kg e pesquisou assassinos políticos, bem como pessoas que sofrem com doenças mentais após eventos traumáticos – foi assim que ele compôs as risadas para o filme.

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O papel de Robert DeNiro é uma homenagem a Rupert Pupkin, seu personagem em “O Rei da Comédia”

Destaque também para Robert DeNiro que apresenta um apresentador de talk show norte-americano no melhor estilo David Letterman – um dos personagens centrais para a trama, já que sua função ali é justamente escolher quem são os cidadãos normais e os desviantes, quem são os cidadãos a serem ouvidos e os cidadãos de quem se deve rir.

Brett Cullen interpreta Thomas Wayne, um filantropo bilionário sem escrupulos que decide concorrer a prefeitura de Gotham. Ao contrário das versões anteriores da história do Batman, ele desempenha um papel nas origens do Coringa e é menos simpático do que as encarnações anteriores. Dante Pereira-Olson interpreta Bruce Wayne, filho de Thomas, que se torna o arquiinimigo do Coringa, Batman, quando adulto.

No Festival de Veneza, Coringa saiu com o Leão de Ouro. Durante a coletiva de imprensa, o ator Joaquin Phoenix foi cauteloso quando perguntado sobre a personalidade dúbia e a transformação de Arthur em Coringa:

“Meu personagem é a alegria, é a luta para encontrar a felicidade e se sentir conectado. Ele foi tantas coisas diferentes para mim em momentos diferentes e quanto mais imprevisível, mais inspirador. O público decide por si. Certamente, na maioria dos filmes do gênero, há um herói e o vilão e as motivações dos personagens são claras. Eu tenho minha própria opinião. Eu sei o que ele é para mim, mas não gostaria de impor a quem não assistiu ao filme”.

A TRILHA SONORA 

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 Joaquin Phoenix perdeu 23 kilos para interpretar o Coringa

Além de sua marcante fotografia, ‘Coringa’ oferece uma poderosa trilha-sonora. Feita pelo compositor vencedor do EmmyHildur Gudnadottir (‘Chernobyl’ da HBO), a OST inclui várias músicas populares, usando-as como acompanhamento musical da queda de Arthur Fleck em loucura e caos. Os pontos altos da trilha são “Slap That Bass” de Fred Astaire e “Send in the Clowns” de Frank Sinatra.

Muitas das músicas que aparecem no ‘Coringa’ são escolhidas por suas referências óbvias a palhaços e sorrisos. O maior deles é “Send In The Clowns”, originalmente escrito por Stephen Sondheim para o musical A Little Night Music. O filme inclui a música duas vezes: é cantada pelos três homens de negócios de Wall Street que atacam Arthur no metrô e, mais tarde, a versão de Frank Sinatra toca nos créditos finais.

A música em si não tem nada a ver com palhaços, apesar de mencioná-los repetidamente nas letras, e é mais sobre arrependimento e, especificamente, o arrependimento sentido ao final de um relacionamento. Ainda assim, é uma música triste que funciona bem para acompanhar o desespero de Arthur.

No final do filme, quando Arthur incorpora completamente Coringa, a música reflete sua transformação com três escolhas de músicas ousadas. O primeiro deles é Sinatra, “That’s Life”, que toca enquanto Arthur está secando o cabelo com aquele tom icônico de verde.

A seguir, está o hino do estádio, agora padrão, “Rock ‘N’ Roll (Part 2)”, de Gary Glitter. E, finalmente, “White Room”, de Cream, é ouvido no ato final, tocando exatamente quando Coringa atinge seu clímax.

AS REFERÊNCIAS POP

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A cena em que o Coringa dança na escadaria foi feita na Shakespeare Avenue, 1165, no Bronx, em Nova York

Recheado de referências ao universo POP, seja ficticio ou não, Todd Phillips e Joaquin Phoenix mergulharam tanto na história dos quadrinhos, quanto do cinema e da cidade de New York para a composição da jornada de seu vilão – ou seria Coringa um herói?

Em New York, na década de 80, realmente aconteceu a greve dos lixeiros – algo que deixou a cidade realmente suja e que serve como cenário para a sombria Gotham de Todd Phillips.

A cena em que Coringa dança na escadaria foi feita na Shakespeare Avenue, 1165, no Bronx, em Nova York. Depois do lançamento filme, o endereço virou ponto turístico.

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Cena do filme “O Rei da Comédia” de Martin Scorsese (1982)

O talk show de Murray Franklin é inspirado pelo filme “O Rei da Comédia”, que conta a história de um apresentador de TV sequestrado por um fã que fica obcecado por ele. Além desse filme, ‘Coringa’ tem inspiração em “Taxi Driver” de Martin Scorcese – ambos os filmes são estrelados por DeNiro.

A luta de classes permeia os diálogos do filme todo – durante ‘Coringa’, seja através de sua trilha sonora ou pôsteres espalhados pela cidade, “Tempos Modernos”, clássico filme de Charles Chaplin aparece fazendo alusão à opressão sofrida pelos trabalhadores, enquanto os ricos gozam de fortuna e privilégios.

Um dos sintomas mais marcantes da doença de Arthur é seu riso que sempre acontece em situações onde ele se sente desconfortável – uma das referências para essa construção é “O Homem Que Ri”, filme de 1928 onde um médico sofre do mesmo sintoma.

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Cena do filme “O Homem Que Ri” de Paul Leni (1928)

Em 1984, um homem, conhecido mais tarde como ‘O Vigilante do Metrô’, foi inocentado depois de ter matado quatro homens no transporte público de New York – o fato abriu precedentes para discussão sobre portes de armas nos Estados Unidos e também para a população norte-americana discutir se realmente poderia confiar na polícia ou não – tal fato inspirou claramente uma das sequencias mais chocantes de ‘Coringa’.

A maquiagem do Coringa é muito parecida com a de John Wayne Gacy (1942-1994), um serial killer que costumava entreter crianças enquanto estava vestido como Pogo, o Palhaço. Esse estilo de maquiagem foi evitado pelos palhaços que trabalhavam na época porque assustava as crianças.

A MODA

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A maquiagem do Coringa foi inspirada em um famoso serial killer que se vestia como Pogo, o Palhaço

Uma peruca de palhaço inspirada na cor de brócolis, um par de meias brancas e uma cara de palhaço única são apenas algumas das ferramentas do design de moda de ‘Coringa’, usadas para transformar Arthur Fleck, de Joaquin Phoenix, em um dos vilões mais icônicos do cinema.

Para isso, o diretor Todd Phillips procurou pelo figurinista Mark Bridges, duas vezes vencedor do Oscar, para compor sua visão do personagem:

“Quando eu assumo um trabalho como este, é um pouco intimidador”, diz Bridges.

Abandonando a construção de Coringas do passado, como Heath Ledger e Jack Nicholson, o figurinista admite ter pesquisado o terno roxo e a camisa verde vestida por Caesar Romero na série original do Batman:

“Ele era meu Coringa favorito e representa toda uma geração de jovens sentados em frente ao aparelho de televisão”.

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Os looks do Coringa tem inspiração nos anos 80

Como ele estava dividindo um apartamento com sua mãe, Penny (Francis Conroy), que o chama de “meu menininho”, Bridges vestiu Fleck com uma jaqueta com capuz muito pequena e “vagamente juvenil”, juntamente com suas meias brancas.

“Eu nunca uso meias brancas em um filme, mas se alguma vez houve um tempo, seria para Arthur Fleck!”

O filme marca a terceira colaboração de Bridges com Phoenix (“The Master” e “Inherent Vice”). Como o período do filme é o início dos anos 80, a paleta de cores é azul, marrom, malva e cinza, seguida por uma intensidade de cor quando ele se transforma no Coringa.

As calças e as camisas eram todas personalizadas (e desgastadas), com alguns achados de suéteres vintage. O designer criou um colete de ouro e uma gravata para sua roupa de palhaço, que fornece informações sobre seu colapso mental pendente quando usado no funeral de sua mãe. Bridges também recebeu suas sugestões do escritor, que escreveu no roteiro “um traje de ferrugem que Arthur usava por muitos anos”, que se traduzia em um colete cor de ferrugem, um colete em tons de mostarda e uma camisa verde-garrafa estampada.

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Robert De Niro interpreta Murray, um apresentador de talk show em Coringa

Para a composição do personagem de Robert DeNiro, o designer de moda e pesquisador também viu referências de sua juventude:

“Adorei olhar para os apresentadores icônicos da televisão, seja Merv Griffin, Mike Douglas ou Johnny Carson, e o que eles vestiam noite após noite. A qualidade da roupa masculina sempre parecia ótima e sob medida. Havia uma fórmula para o vestuário masculino naqueles dias, por exemplo, DeNiro veste uma jaqueta xadrez e uma camisa e gravata sólidas.”

Influenciado por ternos de três peças, Bridges fez dois conjuntos para o personagem de DeNiro usar em seu talk show, Live With Murray Franklin.

Para a peruca do Coringa, a estilista Kay Georgiou, vencedora do Emmy, se encontrou com Phillips, Bridges e a maquiadora Nicki Ledermann para discutir a paleta de cores e teve uma inspiração incomum: brócolis.

“É tão orgânico, e há tantas cores, então eu fui ao supermercado e as combinei (com o corante)!”. Georgiou também deu a Arthur um “visual social simplista e excluído” com franja cortada e uma peruca que remontam visuais oitentistas.

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Apesar de afirmar não seguir nenhuma HQ específica, o filme presta várias homenagens a HQ “Cavaleiro das Trevas”

Ledermann descobriu que, devido às leis de direitos autorais, não há dois palhaços parecidos, o que provou ser um desafio.

“Quando eu me encontrei com Todd, ele nos mostrou um quadro conceitual do Coringa e como ele deveria ser – muito limpo, muito clássico e muito palhaço”, diz a maquiadora. Como resultado, ela escolheu tons vermelhos, azuis e marrons mais escuros para uma sensação antiga e, é claro, um par de sobrancelhas ameaçadoras.

Se você já viu o filme, comenta aqui o que achou do longa e se concorda ou discorda com algum ponto da nossa análise. De fato, esse é um dos projetos mais emblemáticos de 2019 e forte candidato para o Oscar 2020.

Fotos:  ®Reprodução

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Tudo Sobre A Estetização da Loucura No Filme do Coringa
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Coringa é o mais novo sucesso da Warner e DC Comics que traz a história de origem do vilão mais famoso do Batman. Veja nossa análise completa sobre o filme!
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What Else Mag
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O que você achou?

  • André Luiz

    Filme maravilhoso!

    • What Else Mag

      Muitoooo. Com certeza deve ganha alguma indicação ao Oscar.