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Lil Nas X
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Rap e Country Music: Como Lil Nas X virou a Maior Promessa do POP?

Postado por Alisson Prando / 27 January, 2020

Misturando estética cyberpunk, rap e country, Lil Nas X conquistou o maior hit de 2019 e milhões de visualizações no YouTube.

Aos 20 anos, Lil Nas X tem feito história na cultura POP. Declarando-se gay no Dia do Orgulho LGBTQIA+, ele contrariou as lógicas heteronormativas da indústria e empoderou uma geração inteira afirmando sua identidade. Misturando trap, hip-hop, rap, country music e estéticas visuais provenientes do video-game, sua música “Old Town Road” tornou-se o principal hit de 2019 passando 14 semanas no topo do ranking Hot 100 da Billboard, principal parada musical do mundo. O período na liderança do Hot 100 conquistado por Lil Nas X igualou-se ao do remix de “Macarena” gravado pelos Bayside Boys, em 1996, como música de artista estreante há mais tempo na #1 posição.

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GQ Men of the Year em West Hollyood (Dezembro 2019) | Evento Variety’s Hitmakers (Dezembro 2019)

Até agora, Lil Nas X tem um EP chamado “7”, que conta com as colaborações de Diplo, Cardi B, Travis Parker e Billy Ray Cyrus, uma das maiores estrelas do country music (a música norte-americana mais tradicional), pai de Miley Cyrus. É válido ressaltar que o country tem sobrevivido a partir de flertes estéticos com outros estilos: desde que Hank Williams, considerado o primeiro pop star “caipira” influenciou Elvis Presley e Rolling Stones.

Ampliando os feitos da Geração MTV, em que a música se fundia com outras formas de arte, como as tecnoperformances de Madonna ou os videoclipes de Michael Jackson, Lil Nas X é resultado de Eagles, Shania Twain, diversidade, e é claro, da alta tecnologia que viraliza músicas através de apps como Instagram e TikTok – não a toa, o single “Old Town Road”, produzido com teclado cujo beat custa 30 dólares na web, compôs um refrão que falava sobre fugas a galope misturado com rimas sobre temas urbanos e publicou a música no  – conta com diversos vídeos de famosos e atletas dançando ou cantando a música.

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American Music Awards (Novembro 2019) | Country Music Awards (Novembro 2019)

Por ser completamente híbrida, o single de Lil Nas X causou comoção e confusão na Billboard – foi só depois de alcançar o topo das paradas na revista que a música foi reconhecida como suficientemente “country”. Para mostrar apoio, Keith Urban, estrela country, fez uma versão de “Old Town Road” para o YouTube tocada apenas com banjo.

Sentindo-se acolhido, Lil Nas X respondeu aos críticos conservadores: Você pode botar elementos de rap em uma canção country, mas desde que seja um artista estabelecido no ramo. Quando um cara negro faz o mesmo, e ainda por cima alcança o topo das paradas, vem o questionamento: ‘Quem esse cara pensa que é?’ ”.

Depois de assumir-se gay, apesar das declarações altamente homofóbicas que recebeu, Lil Nas X foi contratado pela gravadora Sony e recebeu indicações ao Grammy 2020, maior premiação da música, do qual foi vencedor na categoria “Melhor Clipe”. Espera-se que sua turnê seja um dos hits deste ano – nada mal para alguém que por conta da homofobia da família foi expulso de casa, não tinha dinheiro e dormia no chão da casa de sua irmã.

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iHeartRadio Music Festival (Março 2019)Estúdios SiriusXM (Agosto 2019)

“Old Town Road” também ganhou um clipe superproduzido, que ultrapassou os 200 milhões de visualizações no YouTube. No videoclipe, Lil Nas X aparece montado em seu cavalo, com roupa de cowboy. Primeiro, passeia pela periferia, onde ganha um “pega” de um carro; depois, segue para um local chamado Old Town Hall, onde estão pessoas brancas, com figurino country.

A cena reflete um tabu que o artista tenta quebrar em sua escalada, uma vez que o country norte-americano é amplamente dominado por músicos brancos (na lista de top 100 músicas country de 2018 da Billboard, apenas cinco eram de artistas negros).

A TENDÊNCIA COWBOY NA CULTURA POP

Cada vez mais, artistas do indie, rock, e POP, tem abraçado seu lado cowboy: Cardi B se vestiu como stripper no videoclipe “Thotiana Remix”, e no palco em Houston, em um local chamado The Rodeo. Solange Knowles prestou homenagem aos cowboys negros que costumava ver crescendo em Almeda, Texas, nos visuais de “When I Get Home”.

Lil Tracy orgulhosamente possui o título de “cowboy gótico”. Mac DeMarco nomeou seu álbum mais recente, “Here Comes the Cowboy”. A cantora de “Space Cowboy”, Kacey Musgraves, conquistou o Grammy, levando para casa prêmios não apenas nas categorias de country, mas também no cobiçado prêmio de ‘Album do Ano’ com “Golden Hour”.

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Performance MTV Video Music Awards (Agosto 2019) Red Carpet MTV Video Music Awards (Agosto 2019)

Madonna vestiu um chapéu de cowboy no teaser de seu novo álbum “Madame X”, embora ela já tenha feito isso em “Music” no começo dos anos 2000; no álbum mais importante da década, “Lemonade”, Beyoncé ironiza cowboys em “Daddy Lessons”, música que fez com que a artista performasse no Country Music Awards com as Dixie Chicks, sem contar em Lady Gaga em seu “Joanne” e “A Star is Born” e os últimos registros musicais Miley Cyrus. Talvez a essa altura não seja preciso dizer que Lil Nas X é um dos maiores ícones representativos da cultura cowboy rap.

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Se espalhando como um vírus, a cultura cowboy tem aparecido em memes, música, no cinema e redes sociais. Alguns artistas aproveitam essa tendência para tratar sobre o apagamento histórico de cowboys negros dentro da mitologia tradicional norte-americana.

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Festival Glastonbury (Junho 2019) | Internet Live By BuzzFeed (Julho 2019)

Como uma resposta ao slogan de Donald Trump, “Make America Great Again“, os cowboys contemporâneos deslocam a imagem da autoridade masculinista e branca norte-americana. São artistas que utilizam a estética country para criar pontos de vista que deslocam essa maioria autoritária:

“Ser um cowboy não tem nada a ver com a sua origem, ou com a música que você faz, ou com um chapéu de cowboy”, diz Orville Peck, que utiliza no cotidiano signos de linguagem típicos de country e rodeio. “O espírito do cowboy é sentir-se intrinsecamente deslocado, mas ainda encontrar a confiança necessária para continuar se movendo com a cabeça erguida. É sobre rebelião, e encontrar poder, mesmo dentro da solidão ou alienação. Conheço muitos cowboys e posso prometer que nenhum deles pastorou um gado sequer”.

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Red Carpet BET Awards (Junho 2019) | Performance BET Awards (Junho 2019)

Algo a ser notado é que muitos desses artistas apontam novas perspectivas de identidade e sexualidade da América contemporânea: o renascimento dos cowboys se dá a partir de artistas que participam de comunidades marginalizadas, como as pessoas negras, mulheres ou pessoas LGBTQIA+. É algo que Solange elaborou em uma sessão recente entrevista em Houston, discutindo a inclusão de cowboys negros no videoclipe de “When I Get Home”.

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Entre as décadas de 1860 e 1880, um quarto dos trabalhadores da pecuária de corte era negro e, voltando ainda mais, os vaqueiros dos nativos americanos costumavam conduzir gado para colonos espanhóis no México. Para Solange, o filme era uma maneira de re-introduzir os negros em um narrativa que foi criada por filmes do Velho Oeste e a Mitologia de Cowboy Solitário.

“Crescendo no Texas, em Almeda, você via cowboys negros na rua”, disse a artista. “Eu não conheço John Wayne. Eu não conheço a história dele. Tivemos que reescrever o que a história negra significa para nós desde o início dos tempos … Não é apenas uma estética, é algo que realmente vivemos.”

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Festival Stagecoach (Abril 2019) | Music Choice (Maio 2019)

A musicista e vocalista Tia Cabral, de Oakland, mais conhecida como “SPELLING”, explora essa idéia na capa do seu novo álbum Mazy Fly, na qual ela fotografou em um rancho em trajes de vaqueira. Seu projeto “SPELLING” se baseia em temas mitológicos e muitas vezes investiga o ventre escuro dos Estados Unidos”, diz Cabral.

“O cowboy passou a ser uma figura tão específica da iconografia ocidental, do ‘Sonho Americano’, o maior mito de todos os tempos. Meus ancestrais eram os cowboys originais da terra, vaqueiros, que vieram de uma história complicada e violenta da colonização espanhola. ”

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Boston Calling Music Festival (Maio 2019) | Fashion Nova x Cardi B Collection (Maio 2019)

Mas não é apenas a música do Velho Oeste voltou: a mídia visual também, de programas de TV como “Westworld” ou “Godless” a filmes como “The Sisters Brothers” e “The Ballad of Buster Scruggs”. O videogame “Red Dead Redemption 2” se esforça bastante para capturar a sensação estética do Velho Oeste, mas sua representação de assuntos como violência e papéis de gênero fala mais das ansiedades do século XXI (também forneceu a Lil Nas X o visual de “Old Town Road”).

Em outras palavras, o que esses artistas estão fazendo é ironizando as imagens ricas e pré-estabelecidas do Velho Oeste, e Lil Nas X tem sido o grande assunto da música e da moda no último ano, ao mesclar influências de country e cyberpunk, a cada aparição pública, como o mais recente look de inspiração bondage da Versace na premiação mais importante da música, o Grammy Awards.

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Grammy Awards 2020 (Janeiro 2020)

Curtiu o estilo do cantor? Ele faz parte do seleto grupo de garotos millennials que têm revolucionado a moda masculina ao provocar os padrões pré-estabelecidos. Veja também os looks ousados de grandes nomes da música pop como Shawn Mendes, Olly Alexander e Harry Styles.

Fotos: ®Reprodução

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Lil Nas X tem sido o grande assunto da música e da moda no último ano, ao mesclar influências de country e cyberpunk a cada aparição pública que faz.
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